Saudade do tempo

Saudade do tempo

Saudade é, definitivamente, um troço que a gente não explica… Tenho meus dias frios – no meu caso, literalmente! -, distantes, onde nada me faz ter nostalgia, nem mesmo uma velha música no rádio. Nenhuma foto, cheiro ou objeto pode me afetar. São os meus chamados “dias-carapaça”.

A gente que vive “longe de casa” cria uma crosta, uma sorte de proteção contra os aroubos de melancolia e lamento que nos chegam, de repente, de vez em quando. Aquele mundo conhecido e aconchegante, outrora tão nosso, agora tão distante, seja geografica como temporalmente, nos falta. Porém, a camada tão poderosa é frágil, totalmente passível de perfusão, de invasão, que nos causa lágrimas, banzo, dor.

Quantas vezes a dor física veio me abater, debaixo do chuveiro, na cama, de saudade. Sim, saudade de casa, dos meus pais, do meu irmão pequeno (e tão imenso), dos cheiros e formas. Quanta coisa para me causar isso! Não são lamentos de arrependimentos, de vontade de voltar, mas de vontade de rever, tocar, cheirar. Vontade de absorver, com toda a capacidade que eu tiver, cada milímetro da imagem, do som, do momento. Encher-me de energia, de força para seguir em frente, alegrar meu dia, me levantar.

Mamãe acha que quando sai do banho não tem cheiro. Puro engano. Aquele cheiro de rosas, em qualquer lugar poderia distinguir. É ela, sem dúvida. A minha roseira ambulante! Mas, quando quero vê-la, não são fotos que olho, são meus filhos. Como se parecem com ela! Quantas atitudes, hábitos e até palavras me fazem “ver” minha mãe. Ela não mora aqui perto, mas permanece nos netos, em cada simples gesto que fazem. E como isso me alegra e me dá banzo ao mesmo tempo!

Na mais recente visita de meu pai, ele deixou, como de hábito, sua última muda de roupa vestida para eu lavar. Secretamente, deixa no ármario. Deixei-a ficar lá, pendurada no ármario, como se quando ele voltasse do trabalho, fosse ainda vestí-la. Para não perder a sua essência, coloquei-a num saco. E quando a vontade de me teletransportar me invade, deixo-me abraçar por ele, através do cheiro que vem da embalagem. Nostalgia de um tempo que não volta mais, mas que continua presente na minha alma, no meu coração, nas diversas imagens lindas, coloridas, que passam na minha cabeça num simples fechar de olhos.

4 thoughts on “Saudade do tempo

  1. Oi Andrea, soh deixando uma mensagem para dizer que seu post tocou profudamente assim como um verso de uma musica ou uma linha de um livro q consegue explicar um sentimento de uma maneira melhor do que qualquer tentativa minha de faze-lo. Obrigada!

  2. Olá Andrea!
    Que texto lindo! Quanta delicadeza e sentimento! Adoro textos assim!
    Também sinto essa saudade e me encontro em situação parecido, só que na Hungria. Aprendemos a conviver com essa companhia constante da falta dos que amamos… Fazer o quê? Acredito que também ganhamos com isso, aprendemos a dar valor e fazer de cada breve momento que temos com quem amamos, realmente valerem a pena. São poucos momentos, mas intensos.
    Parabéns pelas lindas palavras e continue escrevendo!
    Beijos!

  3. Desculpe-me pelos erros… Crianças falando comigo enquanto estou tentando escrever pra vc… ahahah Tenho certeza que vc conhece a situação. Beijos!

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